O Uber causa muita polêmica. Não vou entrar nesse debate hoje. Mas vou cravar aqui: o Uber é o passado. O futuro é uma coisa bem diferente.
Uma única coisa não gera discussão sobre o Uber: seu sucesso com os consumidores e com os investidores. O Uber virou até uma maneira de se dizer "empresa nova que entra em um mercado e vira ele de cabeça pra baixo". No jargão da internet, é "Disrupção": uma tecnologia, ou modelo de negócio, que já nasce destruindo a maneira antiga de fazer as coisas.
Então hoje se fala no Uber dos Serviços Domésticos, o Uber das reservas para restaurante, o Uber dos passeadores de cachorro etc. etc. Só que pouca gente se tocou que já existe o Uber do Uber. Está no nariz de todo mundo. Não no Brasil, mas em muitos países. É uma coisa que torna o Uber absolutamente inútil.
Chama-se... transporte público de qualidade. Mais especificamente: metrô.
Se você for amanhã para Nova York, Tóquio, Paris e várias outras metrópoles, vai perceber que pode ir a qualquer lugar da cidade em pouco tempo, gastando pouquíssimo. E para fora da cidade também. Porque essas cidades têm muitas estações de metrô, todas interligadas. E essas redes são ligadas a ferrovias que atravessam o país, e aliás se conectam com outros países.Dá para ir de uma ponta a outra da Europa só usando transporte público e gastando uma mixaria.
Por que um parisiense usaria o Uber? Para ficar empacado no trânsito, e gastar muito mais do que a passagem de metrô? Só numa situação de emergência. Ou voltando da balada de madrugada, porque nem todas as estações de metrô funcionam a noite toda. Mas para emergências e bebedeiras já existe táxi, né?
Fora que essas cidades (e muitas cidades médias) têm, além do metrô, ônibus limpos, confiáveis e baratos. E é por isso que em muitas das maiores cidades do mundo há décadas boa parte da população não tem carro. Carro pra quê? Transporte público te leva a qualquer lugar, é conveniente e barato. É uma coisa tão boa e eficiente que várias cidades já estão fornecendo transporte público gratuito! Algumas cidades, para todos os passageiros. Outras só em algumas linhas, ou para alguns grupos (por exemplo, estudantes ou idosos).
Tem um outro detalhe. Que cada vez será menos um detalhe, e mais uma prioridade. Menos carro na rua, além de menos trânsito, significa menos poluição no ar. O que é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta. Um modelo de negócio baseado no transporte de uma pessoa, via automóvel particular, queimando gasolina, não faz nenhum sentido no século 21, com as mudanças climáticas à toda. Aliás, o Uber acaba de receber um investimento gigantesco, de US$ 3,5 bilhões, de quem? Do fundo soberano da Arábia Saudita. Que é o maior produtor de petróleo do mundo. E onde as mulheres são proibidas de dirigir...
Onde o Uber poderia fazer mais sucesso e sentido? Onde o transporte público é pouco e ruim, onde táxi é caríssimo, onde não há regras trabalhistas como as do primeiro mundo para defender os taxistas. Ou seja, em países pouco desenvolvidos. Como o Brasil. Mas para 90% dos brasileiros (e indianos, colombianos, nigerianos etc.) o Uber é muito caro (e carro é o grande sonho de consumo). Os outros 10% já têm carro e não abrem mão dele. Sobra um grupinho de potenciais clientes abonados. Mas...
Esses dias saí de uma reunião com uma pessoa, ele chamou um Uber, fui junto. Ele ficou no seu escritório, eu ainda estava longe de casa. Falei pro motorista do Uber: eu não tenho o aplicativo, você me leva mesmo assim? Ele falou: claro!
Rodamos mais uns 15 minutos. Perguntei quanto foi? Ele disse que não era nada. Eu falei nada disso, você trabalhou, tenho que te pagar, pô. Ele disse que seria uns oito reais. Dei dez e falei para ficar com o troco. Ele ganhou mais do que se fizesse a corrida via Uber. Eu paguei menos do que se tivesse chamado o carro via Uber. O cara me deu um cartãozinho com o telefone e disse: doutor, eu faço corrida particular, precisando é só ligar... O Uber, essa maravilha da tecnologia, não resiste a um telefonema.
Vai ver que é por isso que o Uber dá um prejuízo enorme, no mundo inteiro. Literalmente, bilhões de dólares de prejuízo. Quem fecha a conta? Grandes investidores, que acreditam que um dia o Uber vai dar lucro.
Pode ser. Pode ser que em dez anos o Uber esteja morto, ou seja uma coisa completamente diferente. Já vi grandes apostas da internet darem em nada, já vi darem em muita coisa. O tempo dirá. Só tenho uma certeza: o futuro é transporte coletivo de qualidade, barato ou gratuito, e não-poluente. Em alguns lugares do mundo isso já é o presente. Isso sim é que é inovação. E fazer isso no Brasil é que será a verdadeira disrupção.