quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

SEMELHANÇA COM OS DIAS ATUAIS

Eu Acuso! – O processo do Capitão Dreyfus 1898Emile ZolaParis, 13 de janeiro de 1898Carta a M. Félix Faure Presidente da República FrancesaSenhor,Permiti-me que, agradecido pela bondosa acolhida que me dispensou,preocupe-me mais com a vossa glória e vos diga que vossa estrela, tão felizaté hoje, está ameaçada pela mancha mais vergonhosa e inapagável. Saístessão e salvo de baixas calúnias e conquistastes corações. (...) Mas que mancha
de lodo sobre o vosso nome pode imprimir este abominável processo Dreyfus!
Desde logo um Conselho de Guerra se atreve a absolver a Esterhazy, numa
bofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E não há remédio; a
França vai conservar esta mancha e a história vai registrar que semelhante
crime social foi cometido ao amparo da vossa presidência. Já que se agiu sem
razão, falarei.
É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro do
inocente que expia cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por isso
me dirijo a vós gritando a verdade com toda a força da minha rebelião de
homem honrado. Estou convencido de que ignorais o que ocorre. Mas a quem
denunciar as infâmias desta turba de malfeitores, de verdadeiros culpados,
senão ao primeiro magistrado do país?! (...) Antes de tudo, a verdade sobre o
processo e a condenação de Dreyfus. (...)
Procedeu-se a um minucioso registro, examinando-se as caligrafias. Aquilo era
como um assunto de família e se buscava o traidor nos mesmos escritórios
para surpreendê-lo e expulsá-lo. A partir do momento em que uma leve
suspeita recaiu sobre Dreyfus, aparece o comandante Paty de Clam, que se
esforça para confundi-lo e fazê-lo confessar.
Aparece também o ministro da Guerra, o general Mercier, cuja inteligência
deve ser muito mediana, o chefe do Estado Maior, general Boisdeffre, que por
certo cedeu à sua paixão clerical, e o general Gonse, cuja consciência elástica
pode acomodar-se a muitas coisas.
O comandante Paty de Clam prende Dreyfus e o deixa incomunicável. Corre
depois em busca da senhora Dreyfus e lhe infunde o terror, prevenindo-a de
que se falar sobre o assunto, seu marido estará perdido. De sua parte o infeliz
proclama em alaridos a sua inocência, enquanto a instrução do processo se faz
como a crônica do século XV, em meio ao mistério, com uma terrível
complexidade de expedientes, tudo baseado numa suspeita infantil, na nota
suspeita... (...) Dreyfus conhece várias línguas: é um crime; em sua casa não
encontram papéis comprometedores: é um crime; algumas vezes visita sua
terra: é um crime; e trabalhador, tem ânsia de saber: é um crime; não se
perturba: é um crime. Tudo é crime, sempre crime.
Falaram-nos de 14 acusações e não aparece mais que uma: a nota manuscrita
suspeita. Os peritos não estão de acordo e um deles, M. Gobert, foi atropelado
militarmente porque se permitia opinar em contra o que se desejava. Assim,
pois, somente restava a nota suspeita, acerca da qual os peritos não estavam
de acordo.(....) Para justificar a condenação fala-se da existência de um
documento secreto, arrasador, um documento que não se pode publicar e que
justifica tudo e ante o qual todos devemos nos inclinar. (...) O primeiro
Conselho de Guerra pode ter-se equivocado, mas o segundo mentiu. (....) Por
isso, repito, Dreyfus não pode ser inocente sem que todo o Estado Maior
apareça como culpado. (....) Tal é a verdade, senhor presidente.(...) Não creia
V., Exa. Que eu desespero do triunfo. Eu repito com uma certeza que não
permite a menor vacilação: a verdade avança e nada poderá detê-la. Quanto
mais duramente se oprime a verdade, mais força ela ganha, e a explosão será
terrível. Veremos como se prepara o mais ruidoso dos desastres.
Senhor presidente, concluo, que já é tempo:
de lodo sobre o vosso nome pode imprimir este abominável processo Dreyfus!Desde logo um Conselho de Guerra se atreve a absolver a Esterhazy, numabofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E não há remédio; aFrança vai conservar esta mancha e a história vai registrar que semelhantecrime social foi cometido ao amparo da vossa presidência. Já que se agiu semrazão, falarei.É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro doinocente que expia cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por issome dirijo a vós gritando a verdade com toda a força da minha rebelião dehomem honrado. Estou convencido de que ignorais o que ocorre. Mas a quemdenunciar as infâmias desta turba de malfeitores, de verdadeiros culpados,senão ao primeiro magistrado do país?! (...) Antes de tudo, a verdade sobre oprocesso e a condenação de Dreyfus. (...)Procedeu-se a um minucioso registro, examinando-se as caligrafias. Aquilo eracomo um assunto de família e se buscava o traidor nos mesmos escritóriospara surpreendê-lo e expulsá-lo. A partir do momento em que uma levesuspeita recaiu sobre Dreyfus, aparece o comandante Paty de Clam, que seesforça para confundi-lo e fazê-lo confessar.Aparece também o ministro da Guerra, o general Mercier, cuja inteligênciadeve ser muito mediana, o chefe do Estado Maior, general Boisdeffre, que porcerto cedeu à sua paixão clerical, e o general Gonse, cuja consciência elásticapode acomodar-se a muitas coisas.O comandante Paty de Clam prende Dreyfus e o deixa incomunicável. Corredepois em busca da senhora Dreyfus e lhe infunde o terror, prevenindo-a deque se falar sobre o assunto, seu marido estará perdido. De sua parte o infelizproclama em alaridos a sua inocência, enquanto a instrução do processo se fazcomo a crônica do século XV, em meio ao mistério, com uma terrívelcomplexidade de expedientes, tudo baseado numa suspeita infantil, na notasuspeita... (...) Dreyfus conhece várias línguas: é um crime; em sua casa nãoencontram papéis comprometedores: é um crime; algumas vezes visita suaterra: é um crime; e trabalhador, tem ânsia de saber: é um crime; não seperturba: é um crime. Tudo é crime, sempre crime.Falaram-nos de 14 acusações e não aparece mais que uma: a nota manuscritasuspeita. Os peritos não estão de acordo e um deles, M. Gobert, foi atropeladomilitarmente porque se permitia opinar em contra o que se desejava. Assim,pois, somente restava a nota suspeita, acerca da qual os peritos não estavamde acordo.(....) Para justificar a condenação fala-se da existência de umdocumento secreto, arrasador, um documento que não se pode publicar e quejustifica tudo e ante o qual todos devemos nos inclinar. (...) O primeiroConselho de Guerra pode ter-se equivocado, mas o segundo mentiu. (....) Porisso, repito, Dreyfus não pode ser inocente sem que todo o Estado Maiorapareça como culpado. (....) Tal é a verdade, senhor presidente.(...) Não creiaV., Exa. Que eu desespero do triunfo. Eu repito com uma certeza que nãopermite a menor vacilação: a verdade avança e nada poderá detê-la. Quantomais duramente se oprime a verdade, mais força ela ganha, e a explosão seráterrível. Veremos como se prepara o mais ruidoso dos desastres.Senhor presidente, concluo, que já é tempo:de lodo sobre o vosso nome pode imprimir este abominável processo Dreyfus!Desde logo um Conselho de Guerra se atreve a absolver a Esterhazy, numabofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E não há remédio; aFrança vai conservar esta mancha e a história vai registrar que semelhantecrime social foi cometido ao amparo da vossa presidência. Já que se agiu semrazão, falarei.É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro doinocente que expia cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por issome dirijo a vós gritando a verdade com toda a força da minha rebelião dehomem honrado. Estou convencido de que ignorais o que ocorre. Mas a quemdenunciar as infâmias desta turba de malfeitores, de verdadeiros culpados,senão ao primeiro magistrado do país?! (...) Antes de tudo, a verdade sobre oprocesso e a condenação de Dreyfus. (...)Procedeu-se a um minucioso registro, examinando-se as caligrafias. Aquilo eracomo um assunto de família e se buscava o traidor nos mesmos escritóriospara surpreendê-lo e expulsá-lo. A partir do momento em que uma levesuspeita recaiu sobre Dreyfus, aparece o comandante Paty de Clam, que seesforça para confundi-lo e fazê-lo confessar.Aparece também o ministro da Guerra, o general Mercier, cuja inteligênciadeve ser muito mediana, o chefe do Estado Maior, general Boisdeffre, que porcerto cedeu à sua paixão clerical, e o general Gonse, cuja consciência elásticapode acomodar-se a muitas coisas.O comandante Paty de Clam prende Dreyfus e o deixa incomunicável. Corredepois em busca da senhora Dreyfus e lhe infunde o terror, prevenindo-a deque se falar sobre o assunto, seu marido estará perdido. De sua parte o infelizproclama em alaridos a sua inocência, enquanto a instrução do processo se fazcomo a crônica do século XV, em meio ao mistério, com uma terrívelcomplexidade de expedientes, tudo baseado numa suspeita infantil, na notasuspeita... (...) Dreyfus conhece várias línguas: é um crime; em sua casa nãoencontram papéis comprometedores: é um crime; algumas vezes visita suaterra: é um crime; e trabalhador, tem ânsia de saber: é um crime; não seperturba: é um crime. Tudo é crime, sempre crime.Falaram-nos de 14 acusações e não aparece mais que uma: a nota manuscritasuspeita. Os peritos não estão de acordo e um deles, M. Gobert, foi atropeladomilitarmente porque se permitia opinar em contra o que se desejava. Assim,pois, somente restava a nota suspeita, acerca da qual os peritos não estavamde acordo.(....) Para justificar a condenação fala-se da existência de umdocumento secreto, arrasador, um documento que não se pode publicar e quejustifica tudo e ante o qual todos devemos nos inclinar. (...) O primeiroConselho de Guerra pode ter-se equivocado, mas o segundo mentiu. (....) Porisso, repito, Dreyfus não pode ser inocente sem que todo o Estado Maiorapareça como culpado. (....) Tal é a verdade, senhor presidente.(...) Não creiaV., Exa. Que eu desespero do triunfo. Eu repito com uma certeza que nãopermite a menor vacilação: a verdade avança e nada poderá detê-la. Quantomais duramente se oprime a verdade, mais força ela ganha, e a explosão seráterrível. Veremos como se prepara o mais ruidoso dos desastres.Senhor presidente, concluo, que já é tempo:Eu acuso o Ten. Coronel Paty de Clam, como agente do erro judicial e porhaver defendido sua obra nefasta por três anos com maquinações insanas eculpadas. Eu acuso o general Mercier por haver-se tornado cúmplice, aomenos por fraqueza, de uma das maiores iniqüidades do século. Eu acuso ogeneral Billot de haver tido em suas mãos as provas da inocência de Dreyfus, enão as haver utilizado, fazendo-se, portanto, culpado pelo crime de lesahumanidadee de lesa-justiça, com o fim político de salvar o Estado Maiorcomprometido.Eu acuso o general Boisdeffre e o general Gonse por tornarem-se cúmplices domesmo crime, um por fanatismo clerical e outro por espírito de corpo, que fazdos escritórios do Ministério da Guerra uma arca santa e inatacável. Eu acusoo general Pellieux e o comandante Ravary por haverem fabricado umainformação infame, uma informação parcialmente monstruosa, na qual osegundo lavrou o imperecível monumento de sua torpe audácia.Eu acuso os três peritos calígrafos, os senhores Belhomme, Varinard e Couardpor seus pareceres enganadores e fraudulentos, a menos que um examemédico os declare vítimas de uma cegueira dos olhos ou do juízo. Eu acuso oMinistério da Guerra por haver feito na imprensa, particularmente no L' É Claire no L'Echo de Paris, uma campanha abominável, enganando a opinião públicapara cobrir a sua falta. Eu acuso o primeiro Conselho de Guerra por tercondenado um acusado, com fundamento num documento secreto. E Eu acusoo segundo Conselho de Guerra por haver coberto esta ilegalidade, cometendoo crime jurídico de absolver conscientemente um culpado (Esterhazy).Eu não ignoro que ao formular estas acusações atraio sobre mim os artigos 30e 31 da Lei de Imprensa, que se referem aos delitos de difamação.Voluntariamente ponho-me à disposição dos Tribunais. Um só sentimento memove: o desejo de que se faça luz. Meu ardente protesto nada mais é que umgrito de minha alma. Que se atrevam a levar-me aos Tribunais e me julguempublicamente. Assim espero.Émile ZolaParis, 13 de janeiro de 1898- SEMELHANÇAS COM HOJE OCORRE NOS FATOS DA AP-470.

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